Uma luz na escuridão (Último capítulo)

Capítulo XII

Escrevo por quebranto. Alinhavo textos para remediar decepções, debelar desesperos, sarar feridas. Divago. Preciso untar calcanhares que racharam com as pedras do caminho. Sou curado na angústia de corrigir, revisar, apagar, reescrever. Ao me aventurar na literatura, vislumbro a excelência e me intrigo como ela se distancia de mim. No desafio de cinzelar poucas frases, noto que o absoluto foge, além do meu alcance. (Ricardo Gondim)

Infelizmente não poderei terminar esta série autobiográfica com uma mensagem de esperança ao som do piano de Richard Clayderman. Estou mais para “Senhor, ajuda-me na minha falta de fé” (Marcos 9:24) do que para “tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13), admito.

As avaliações psicológicas mais recentes continuam indicando depressão grave, acompanhada de ansiedade, desesperança e presença de ideação suicida. O que isso significa? Significa que ainda tenho um longo caminho pela frente e que essas coisas ainda estarão comigo durante algum tempo. Eu gostaria de poder escolher viver os próximos anos de minha vida sem essas enfermidades, mas essa não é uma questão simples de escolha e vontade. A depressão ainda é uma enfermidade misteriosa, controladora e, em muitos casos, crônica.

Tudo isso faz e fará parte da minha história. Por quanto tempo eu não sei, mas sei que ela está sendo escrita enquanto eu estou vivo. Ouso agora, mesmo que brevemente, me aventurar pela Teologia e expressar minha expectativa quanto a esse tema. Mesmo respeitando o pensamento teológico em todas as suas expressões, eu prefiro acreditar na vida como uma história aberta que está sendo escrita por mim e por você. Nessa vida não predestinada, misteriosa, atraente e imprevisível há espaço para todos e para tudo: alegrias, tristezas, saúde e enfermidade, tudo é vida e é liberdade.

Quando leio a Bíblia me encontro diante do trio vida-responsabilidade-liberdade que está sobre meus ombros e que me foi oferecido ao nascer. Essa forma de pensar a teologia não me oferece respostas para o sofrimento que me tomou há cinco anos atrás e sob o qual vivo até hoje, mas a outra opção é para mim uma declaração de insignificância existencial. Isso porque a outra opção oferecida é afirmar que estou doente porque Deus me fez adoecer. Esse caminho me oferece todas as respostas e explicações, mas, honestamente, não acredito nisso e nunca acreditei. Não creio que Deus seja o responsável por tudo o que acontece comigo porque creio que ele ao criar o homem concedeu-lhe capacidade para assumir livremente a condução de sua própria história e até mesmo para não ter respostas.

Tenho, portanto, duas opções para explicar o burnout e a depressão: “Deus está permitindo, ele é o autor do meu sofrimento, e ele fez isso com um propósito”, ou, “eu não sei”, simples assim. A primeira resposta serve para o púlpito e para transmitir espiritualidade e a segunda serve para o travesseiro, ou para os momentos em que estou olhando a linha do horizonte formada pelo mar. Surpreendentemente me vejo mais perto da cura quando lembro que sou livre, porque se meu adoecimento vem de Deus só me resta esperar e esperar.

Vou então vivendo a liberdade de tentar amar a Deus e de aguardar o próximo momento, o próximo dia, mesmo sem saber o que virá. Quando a Leda Nagle do programa Sem Censura completou 30 anos de carreira lançou um excelente livro com algumas entrevistas que fez ao longo desse tempo e uma delas foi com a cantora Zélia Duncan. O que ela disse expressa bem a maneira como vejo a vida que Deus nos dá: “Acho que é do que mais me orgulho nesses 25 anos de carreira: fechar os olhos e jogar as sementes, e elas irem nascendo desordenadamente. E eu vou colhendo como posso. Algumas ficam no chão, outras vou pegando como posso”. É lindo isso. Como estou jogando as sementes, como elas estão nascendo, quais estou colhendo e quais estão ficando pelo chão é o assunto deste livro, que é a história única da minha vida, a mais preciosa para mim, a única que posso compartilhar como testemunho pessoal, a única na qual posso aprender a sorrir de novo, a jogar sementes, a colher frutos, a amar as pessoas e a Deus.

Apesar de nossa sociedade oferecer a felicidade de uma forma abundante e intensa como jamais vimos, nunca houve na história tantas pessoas enfermas emocionalmente. Nem elas e nem você podem se transformar em outra pessoa, mas podem escrever a própria história, lançar as próprias sementes e colher o que for possível dessa vida imprevista. As que ficarem pelo chão talvez sejam colhidas por algum pássaro em busca de alimento para seus filhotes. Assim é a depressão que enfrento todos os dias e noites, ela pode ser colhida por alguém em algum momento e em algum lugar, para de alguma maneira ser transformada livremente em lição de vida nessa misteriosa experiência de existir.

Por último, deixo um abraço, como lugar de aceitação e acolhimento, onde a temperatura é generosamente aquecida, onde recebo e sou recebido, e onde há sempre lugar para mais gente. Ao escrever as últimas palavras desta série autobiográfica minha lembrança se enche de muitas pessoas que eu gostaria de abraçar agora, gente saudável e gente deprimida, gente alegre ou triste, pessoas que sei, estão sofrendo por algum motivo, crentes e descrentes, santos e pecadores. O abraço, como tão bem canta e toca o Jota Quest, é o melhor lugar do mundo pra mim e pra você, mesmo em tempos nebulosos de burnout e depressão, ou de qualquer outra dor invisível.

Dentro de um abraço
(PJ e Rogério Flausino – Jota Quest)

O melhor lugar do mundo
É dentro de um abraço
Pro mais velho ou pro mais novo
Pra alguém apaixonado, alguém medroso

O melhor lugar do mundo
É dentro de um abraço
Pro solitário ou pro carente
Dentro de um abraço é sempre quente

Tudo que a gente sofre
Num abraço se dissolve
Tudo que se espera ou sonha
Num abraço a gente encontra

O melhor lugar do mundo
É aqui, é dentro de um abraço
E por aqui não mais se ouve
O tique-taque dos relógios

Na chegada ou na partida
Raio de sol ou noite fria
Na tristeza ou na alegria

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Como é viver após o burnout e com depressão?

Capítulo XI
De repente eu estava flutuando no ar, sem ter um ponto firme onde me agarrar. Sem ter onde me agarrar, o jeito foi aprender a voar… Tratei de bater minhas asas (Rubem Alves)

Minha vida mudou bastante com o adoecimento e não tem sido fácil pra ninguém, pra mim e para as pessoas à minha volta. Reúno neste capítulo uma relação de consequências diretas do burnout e da depressão, especialmente as que afetam meus relacionamentos e coisas relativas à família e à vida prática.

AS ALTERAÇÕES DE HUMOR

Reconheço que hoje sou uma caixinha de surpresas. Ninguém sabe, nem mesmo eu, como vou acordar amanhã. Para ser mais exato, ninguém sabe se à tarde estarei do mesmo jeito que pela manhã porque as alterações de humor radicais passam a fazer parte da vida de muitos que tem depressão. É incômodo notar na expressão dos meus amigos uma certa aflição ao falar comigo ou me convidar para um café. Há uma expectativa perturbadora no ar. Ao mesmo tempo me sinto culpado e tento ao máximo oferecer uma certa segurança, mas a maior parte do tempo nem eu sei como estarei. Até quando será assim eu também não sei, por enquanto, convivo com a imprevisibilidade.

A INCONSTÂNCIA

Durante esses anos de depressão tenho sido pródigo em fazer planos e iniciar novos projetos. O problema é que o que me fascina hoje pode virar poeira amanhã. Já perdi as contas das vezes em que fiz grandes projetos, produzi material visual, banners, cartas, eventos, salvei planilhas no computador e depois deletei tudo. Comecei a fazer coisas e parei semanas depois, algumas vezes atrapalhei a vida de pessoas, e outras tive que amargar até algum prejuízo financeiro. Na maioria das vezes minha esposa só observa, mas nos projetos mais mirabolantes (e mais caros) ela entra em ação e me convence de que a ideia é excelente, mas não é o momento. Alívio geral (inclusive acho melhor eu terminar logo de escrever esta série de textos!).

A CRISE EXISTENCIAL

Há uma coisa que uma pessoa que enfrenta burnout e depressão faz muito bem: Perguntas. Duvidamos de quase tudo e questionamos quase tudo. São os famosos “quem sou?”, “de onde vim?”, “para onde vou?”, e “o que estou fazendo aqui?”. A crise existencial é como uma gaveta onde vamos colocando apenas perguntas difíceis e sem respostas, e ela reside exatamente no fato de não ter as respostas. Quanto maior a crise mais difíceis as perguntas. Chego a me questionar como minha cabeça pode produzir perguntas tão estranhas, e pensar em coisas tão esquisitas. É assim mesmo, coisa normal no burnout e depressão.

O CASAMENTO E A FAMÍLIA

Ter um casamento sólido significa que duas pessoas se amam e estão comprometidas com a felicidade mútua. Por causa desse amor e compromisso meu casamento nunca esteve ameaçado durante esse tempo de enfermidade. Eu mudei, é claro, e minha esposa também. Ela é a pessoa que, depois de mim, mais sofre com a situação, e é também a que mais me ajuda, a que mais ora, a que mais me ama, e a que mais trabalha nos bastidores (sei de conversas secretas e criptografadas dela com a doutora sobre esconder os ansiolíticos e hipnóticos, mas a Lava-Jato logo as revelará).

Nossos filhos se mostram preocupados. Eles ficaram bem assustados no início, e agora já compreendem um pouco a doença. O mais velho vai começar a faculdade, quer ser arquiteto, e o mais novo está terminando o ensino fundamental. Fico feliz ao ver que estão levando suas vidas normalmente, e mais feliz ainda quando os vejo sorrindo. Eles são uma fonte inesgotável de prazer para mim.

A ATIVIDADE FÍSICA

Como já disse, depois de um ano do início do tratamento eu comecei a praticar o ciclismo. Ser um ciclista sob a dupla burnout-depressão não é fácil, mas a atividade física é imprescindível. Procuro não exagerar na dose, e depois de algumas leituras e pesquisas reconheci minhas possibilidades e limites técnicos, e assim pude ajustar bem minha forma de pedalar. Considerando que a medicação reduz bastante a força muscular, e provoca fadiga e cansaço, fui me especializando em longas distâncias com picos de esforço reduzidos, é o meu pedal preferido. O fato é que não sou rápido, mas consigo ir bem longe em uma manhã, cerca de 80 a 100 km. Preciso também manter as consultas com o cardiologista e exames em dia. É altamente recomendável.

A RELIGIOSIDADE

Sou cristão protestante e não deixei de ser. A depressão afeta bastante a vida religiosa, e em meu caso, a capacidade de liderar foi para o brejo. Na igreja a liderança se encarrega de administrar, presidir, ensinar, pregar e pastorear. Por causa da enfermidade não pude continuar com essas funções de liderança (ainda que possa fazer isso informalmente), e passei a ser “apenas” um frequentador dos cultos. Não consigo mais falar em público, nem uma oração, não tenho mais o desejo de pastorear, pelo menos nos moldes antigos, e não me sinto habilitado a ensinar na igreja. Viver a vida cristã sob o burnout e depressão é para mim viver uma religiosidade momentaneamente muito pessoal, no máximo familiar, esperando que ela volte a ser comunitária novamente.

OS CINQUENTA ANOS

Eu gostaria de completar cinquenta anos estando saudável e feliz. Quando eu era criança ficava pensando em como estaria no ano 2000. Imaginava acontecimentos interestelares, guerras intergalácticas, e fenômenos vindos direto dos buracos negros com seus monstros esquisitos e criaturas deformadas. Também esperava já estar pilotando o meu próprio veículo voador como fazia o George Jetson. Nada disso aconteceu, mas mesmo assim passei pelo ano de 2017, e junto com ele, meus cinquenta anos. Pra falar a verdade estou melhor do que imaginei, e para me ver como vovozinho vai ter que esperar mais um pouco. Acabo de fazer uma bateria de exames de rotina e meu coração está melhor do que eu, e para meus cinquenta anos deixei o cavanhaque e com isso ganhei mais um passatempo, ficar fazendo cafuné nele com ares de inteligente.

O que eu faria se pudesse retornar ao início da vida?

Capítulo X

“O silêncio é a matéria-prima do amor e da oração. Não se trata apenas do silêncio exterior, tão difícil hoje nas grandes cidades. Trata-se, sobretudo, do silêncio interior, que resulta do descanso físico e mental, da concentração, do controle do desejo e da ansiedade, e de deixar-se habitar pelo Espírito. Sob estafa, a oração é como trocar a refeição calma e farta por um sanduíche vendido na esquina e comido em pé” (Frei Betto)

A BBC News de Londres acabou de divulgar um estudo realizado para saber o que as pessoas costumam falar quando estão prestes a morrer. A agência entrevistou enfermeiras do hospital da Universidade Royal Stoke, do Reino Unido, que cuidam de pacientes com câncer em estado terminal. Há casos como de pacientes que pedem para a família levar animais de estimação, outros pedem uma xícara de chá, e alguns seu drink favorito. Perguntadas se tinham algum conselho a dar, as enfermeiras foram enfáticas: “Se há algo que você quer fazer, corra atrás disso”, disseram.

É com esse espírito que faço a pergunta que dá título a este capítulo. Reconheço que ela pode ser ao mesmo tempo saudável e doentia. É preciso uma mistura de coragem e sabedoria para respondê-la sem causar danos já que podemos perigosamente ir do céu ao inferno dependendo da forma como a encaramos. Então deixe-me nortear e deixar bem esclarecido que minha intenção não é a de provocar queixas ou suscitar arrependimentos tardios, mas de usá-la para fazer o passado lançar luz sobre o futuro que nos aguarda.

Acho que todos nós concordamos que nem todas as enfermidades podem ser evitadas. Existe uma série de fatores internos, externos e atemporais que agem sobre nosso corpo e mente produzindo efeitos diversos, e sobre os quais não temos nenhum controle. Não podemos, por exemplo, escolher nosso perfil genético, nosso DNA, a saúde das nossas células, e nem mesmo controlar a qualidade de absolutamente tudo o que comemos e bebemos, mas podemos fazer muitas outras coisas.

ILUMINANDO O FUTURO

Das coisas sérias às engraçadas, e sem ordená-la com alguma lógica, lhes ofereço uma lista do que eu faria se pudesse retornar ao início (lista sujeita à alteração):

Se eu pudesse retornar ao início…

Me importaria menos com a opinião das pessoas (clássica!).
Teria feito mais coisas do meu jeito (clássica também!).
Teria comprado uma bicicleta aos dezoito anos.
Teria parado de usar terno no dia seguinte à ordenação.
Teria guardado dinheiro para o tempo de escassez.
Gastaria menos dinheiro com roupas (caras e baratas).
Não teria gasto dinheiro comprando um carro 0 km.
Teria estudado mais música.

Se eu pudesse retornar ao início…

Teria comprado uma casa na juventude.
Teria dito “não” mais vezes (clássica!).
Teria dado mais ouvidos à minha esposa (essa é a top das clássicas!)
Passearia mais com minha família.
Teria visto um show do Queen antes do Freddie morrer.
Pararia tudo ao primeiro sinal do burnout e da depressão.
Faria todas as refeições com minha família reunida à mesa.
Tomaria mais suco natural.
Comeria mais banana com aveia e mel.

Se eu pudesse retornar ao início…

Daria um beijo em quem inventou o café expresso.
Daria mais gargalhadas.
Leria mais livros.
Escolheria não ser um pastor de tempo integral.
Daria mais valor às amizades “de fora da igreja”.
Brincaria mais com meus filhos.
Beijaria mais minha esposa.
Andaria mais vezes descalço.

Se eu pudesse retornar ao início…

Faria a faculdade antes do curso de Teologia.
Abraçaria mais meu pai e minha mãe.
Sairia dirigindo sem destino mais vezes.
Viveria com menos certezas.
Tomaria mais caldo de cana com bolinho de aipim.
Me preocuparia menos com explicações.

Se eu pudesse retornar ao início…

Iria mais à praia.
Tomaria menos refrigerantes.
Teria sempre um hobby.
Seria menos observador.
Levaria uma vida menos “certinha”.
Pediria a bênção do meu pai e da minha mãe todos os dias.

Segundo o IBGE, um indivíduo que estava com cinquenta anos em 2015 tem hoje uma expectativa de vida de 30,2 anos e consequentemente uma vida média de 80,2 anos¹. Eu, que acabei de completar cinquenta anos (mês passado) estou muito próximo disso, logo, se tudo der certo, eu também viverei até os 80 anos de idade. Se eles estiverem errados pode ser que eu viva até os 100 ou 120 anos.

A grande maioria dos itens da lista que fiz é perfeitamente “realizável” pra mim, e tenho, estatisticamente, cerca de 30 anos para isso. Na verdade essas coisas sempre foram possíveis para mim, mas as distrações, o egoísmo (mesmo imperceptível), e até a comodidade, me fizeram esquecer de algumas. Será excelente conseguir fazer essas coisas e melhorar a vida até que ela se vá definitivamente.


1 – http://www.brasil.gov.br/governo/2016/12/expectativa-de-vida-no-brasil-sobe-para-75-5-anos-em-2015